O nosso primeiro entrevistado foi o sr. Fernando Ribeiro, chefe do trem entre das estações de Belo Horizonte (MG) e Governador Valadares, que nos contou coisas muito interessantes sobre a história e as características dessa viagem. Vale a pena.
Entrevista com o chefe do trem
V.F.: Conte-nos mais sobre essa viagem, sua história e características.
F.R.: É uma viagem de 664 km. O trem parte de Belo Horizonte as 7:30 e chega em (sic) Vitória as 20:10. Nós temos uma média anual de transporte de passageiros de um milhão e duzentos mil passageiros por ano. A formação máxima do trem é de 19 vagões e a mínima é de 12. É de acordo com a demanda, né. De acordo com a venda de passagens antecipadas a gente faz a programação da formação do trem.
V.F.: Hoje o trem está com quantos?
F.R.: Hoje nós estamos com dezessete.
V.F.: Todas as passagens, geralmente, são vendidas antecipadamente, ou tem gente que compra no horário de embarcar?
F.R.: Não, [as passagens] são vendidas com até 30 dias de antecedência, né, inclusive agora na alta temporada, se deixar pra comprar na hora não acha. Hoje por exemplo, as passagens da classe econômica esgotou (sic), só restaram alguns lugares na classe executiva. Então, as passagens são vendidas com até 30 dias de antecedência pra [você] garantir a sua viagem. E tem também as pequenas paradas em localidades que não tem bilheteria. Pra essas localidades, nós temos alguns lugares reservados no trem, pras pessoas embarcarem sem passagem e serem emitidos os bilhetes aqui dentro.
V.F.: Ah sim, mas quando o trem sai de BH o senhor já tem um relatório de quantas poltronas tem disponível no trem?
F.R.: Ah, mas é fixa a quantidade de poltronas. Eu tenho 40 lugares na classe econômica e seis lugares na executiva, reservados pra essa finalidade.
V.F.: Se não houver essa demanda, ou seja, se esses passageiros não embarcarem dessas localidades, esses lugares ficarão livres?
F.R.: Sim, ficam livres, da mesma forma que pode ocorrer de embarcarem mais de 40 pessoas, então, sempre tem esses lugares reservados aqui.
V.F.: Certo. Me diga uma coisa Fernando, desde quando essa viagem está sendo feita assim, de Belo Horizonte até Vitória?
F.R.: 1942...sessenta e seis anos. Esse é o único trem de passageiros no Brasil que circula diariamente, saindo de Belo Horizonte e de Vitória. Temos o trem lá do norte, mas ele circula dia sim, dia não. Por isso que ele não é considerado diário. Em um dia tem um trem só indo, e no outro, um só voltando. Agora esse de minas é todo dia, sai um de Belo Horizonte às 7h30min e outro de Vitória às 7h00min. O cruzamento dos dois [trens] vai se dar próximo a estação de [Governador] Valadares.
V.F.: E se dá mais ou menos em que horário?
F.R.: Entre as 13h00min e 13h30min, a qualquer momento entre esses dois horários.
Observem que (olhando o mapa), o trecho compreendido entre Belo Horizonte até Costa Lacerda, possui linhas mais singelas (linha única). Só nos pátios de cruzamentos é que tem uma segunda linha. No trecho entre Costa Lacerda e Cariacica, as linhas estão duplicadas. Este trecho é chamado de Vitória-Minas. Outra curiosidade é que o sistema de operação dos trens nos dois trechos são distintos entre si. Aqui [no trecho da FCA], estamos sendo guiados por GPS, que fornece a nossa localização para o centro de controle. E lá [no trecho da Vitória-Minas], é um sistema de linhas energizadas que também fornece nossa localização exata para o centro de controle.
V.F.: O trem é movido à diesel né?
F.R.: Sim, Diesel.
V.F.: E essa locomotiva, Fernando? Ela tem capacidade pra puxar até quantos carros de passageiros?
F.R.: Olha..., pra passageiros, essa locomotiva sobra em potência... carros de passageiros são bem leves. Uma locomotiva dessa pode levar até 16.000 toneladas. Então, carros de passageiros ficam muito abaixo disso. Uma locomotiva como essa seria capaz de carregar até 160 vagões carregados com minérios de ferro, tendo cada um, por volta de 100 toneladas.
V.F.: E a velocidade máxima? É controlada Fernando?
F.R.: Sim. 67 km/h é o máximo que o trem pode desenvolver. Ele lá [o maquinista] está sendo monitorado o tempo inteiro. No centro de controle sabe-se que velocidade ele está, que marcha está utilizando... Não tem como ele executar nenhuma operação por conta própria não. Além disso, tem o sistema de vigilância eletrônica também lá dentro da cabine dele que impede que algo saia do controle. Por exemplo, se o maquinista passar mal, o trem só anda desgovernado por 2 minutos. Com 1 minuto sem qualquer reação do maquinista, começa a piscar um sinal luminoso dentro da cabine pra que ele desenvolva alguma ação que possa mostrar pro centro de controle que ele está operando, que está bem. Enquanto ele não reagir, o sinal vai aumentando a intensidade luminosa e vai se tornando sonoro também. Se, em 2 minutos, o centro de controle não identificar uma operação do maquinista (o tocar no F.R.eio, a mudança de uma marcha, tocar o sino ou buzina, mexer em qualquer parte do painel, por exemplo), de lá [do centro de controle], eles param o trem onde quer que ele [o trem] esteja. Da mesma forma que se ele exceder a velocidade em meio quilômetro por hora, ou seja, se a composição chegar à velocidade de 67,5 km/h, o trem pára. Aí só com autoizaçào do centro de controle pra que o trem possa sair novamente.
V.F.: Então, pode-se dizer que toda a operação pode ser interrompida remotamente?
F.R.: Sim... Quando a gente ta dentro do trem, não tem muita noção de todo esse aparato, desse nível de segurança, mas até hoje, nós não temos registro nenhum de acidentes nessa viagem.
V.F.: Desde a inauguração?
F.R.: Isso mesmo. Nenhum registro de acidente até hoje. A viagem é muito segura. É mais demorada se comparada, por exemplo com uma viagem de ônibus, mas nem tanto, coisa de uma hora ou duas horas a mais, dependendo da origem e do destino. Mesmo assim, o pessoal tem feito a opção pelo trem por conta do valor do bilhete. Por exemplo: de Belo Horizonte à [Governador] Valadares, o bilhete de trem custa 23 reais e de ônibus, 59 reais. Quando vc calcula essa diferença pra uma família de 4 pessoas, por exemplo, a economia é muito grande se forem de trem.
V.F.: E, à partir de que idade as crianças pagam bilhetes no trem?
F.R.: À partir de 6 anos de idade. Até 5 anos não pagam desde que não ocupem assentos (vão no colo de pai ou mãe). O que é diferente também dos ônibus. Lá nos ônibus, crianças com 5 anos completos já pagam passagens.
V.F.: Fernando, há quanto tempo você é chefe de trem?
F.R.: Como Chefe de trem eu tenho 5 anos.
V.F.: E está com que idade agora?
F.R.: Eu tenho 29 anos. De Vale [do Rio Doce], eu tenho 10 anos.
V.F.: E antes de ser chefe de trem? O que você fazia Fernando?
F.R.: Antes eu trabalhava no ponto de carregamento de trens. Eu ficava em Itabira. Os trens chegavam lá vazios, eu mandava pras minas carregar, e chegavam a ter, cerca de 240 vagões. E só podiam subir de 80 em 80 vagões. Então eu fazia esse tipo de coisa antes de ser chefe de trem.
V.F.: Você acha que a procura pela viagem de trem, em detrimento dos outros meios de transposte, neste mesmo trecho, é feita principalmente pelo transporte ordinário, ou seja, aquele que as pessoas procuram para irem sistematicamente de uma cidade à outra para, trabalhar, visitar familiares, compromissos pessoais ou está, de alguma forma ligada ao turismo de uma forma geral?
F.R.: Na baixa temporada, o trem é usado, principalmente, para a locomoção de residentes nas localidades ou cercanias atendidas pelo trajeto. Na alta temporada, que neste ano é considerada aberta à partir do dia 15 [de dezembro], a procura maior é de turistas que vêem de todos os lugares para conhecer esse trem pois, como disse antes, é o único do Brasil que circula todos os dias.
VR: Sr. Fernando, muito obrigado por todas essas informações.
F.R.: Eu é que agradeço e fiquem à vontade. Qualquer outra informação, podem me procurar. Aproveitem bem agora porque eu considero o trecho que estamos passando agora (início da viagem, próximo à cidade de Sabará), o mais bonito da viagem.

Re: Entrevista com o Chefe de Trem, Fernando Ribeiro
LENDO A SUA ENTREVISTA PARECE QUE ESTAMOS JUNTOS DE TÃO REAL E EMOCIONANTE. PRBNS